Mais longevos, mais ativos e com maior participação social
Com mais renda, autonomia e poder de compra, população acima dos 50 anos movimenta mercados, inspira novos empreendimentos e amplia a presença em espaços como universidades, academias e atividades profissionais
Por Lucas França, Thayanne Magalhães - Repórteres / Edilson Omena - Foto de capa | Redação
O envelhecimento da população brasileira tem impulsionado a chamada economia prateada, segmento voltado às necessidades, aos desejos e ao potencial de consumo das pessoas com mais de 50 anos. Em Alagoas, o movimento já desperta a atenção de empreendedores e abre espaço para novos modelos de negócios, especialmente nas áreas de saúde, estética, turismo, lazer e bem-estar. O tema vem ganhando destaque diante do crescimento da população idosa e do aumento da participação desse público na atividade econômica.
Para a analista de Relacionamento do Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Alagoas, Anissélia Nunes, os empresários precisam compreender que o consumidor 50+ está cada vez mais ativo e exigente.
“Esse público quer viajar, consumir estética de ponta, praticar atividades físicas ao ar livre, dançar e investir em bem-estar. Os empresários locais precisam estar atentos para atender à demanda de um consumidor cada vez mais exigente”, afirma.

Segundo ela, entre os negócios que mais têm se destacado nesse cenário estão os segmentos de saúde e estética, além do artesanato entre os empreendedores informais. Já para quem busca novas oportunidades de atuação, os espaços de convivência e a realização de eventos voltados ao público maduro aparecem como mercados promissores.
Anissélia ressalta que um dos principais desafios ainda é combater estereótipos relacionados ao envelhecimento. “A idade cronológica não define o comportamento de consumo. Um consumidor de 65 anos pode estar iniciando uma nova faculdade, abrindo uma empresa ou praticando esportes. Tudo isso com um poder aquisitivo maior que o das gerações mais novas”, destaca.
Para apoiar empresários interessados nesse mercado, o Sebrae oferece consultorias em áreas como planejamento, marketing e gestão de pessoas, além de promover missões empresariais para feiras especializadas fora de Alagoas. A instituição também realiza capacitações voltadas à economia prateada, estimulando a preparação das empresas para atender a uma população cada vez mais longeva.
Além do potencial econômico, a especialista enfatiza a importância da inclusão social. “O combate ao etarismo e a valorização da cadeia local são preocupações do Sebrae. Vamos precisar fortalecer e qualificar a mão de obra tanto das empresas que vão atender o público 50+ quanto para preparar essas pessoas para desenvolver suas próprias atividades econômicas”, conclui.
O avanço da economia prateada acompanha uma tendência nacional. Dados do Sebrae apontam que o número de donos de pequenos negócios com 60 anos ou mais cresceu 53% entre 2012 e 2024, reforçando o protagonismo desse público tanto como consumidor quanto como empreendedor.
Envelhecer com autonomia e conexões inspira negócio voltado ao público 50+
O crescimento da população idosa e a busca por um envelhecimento mais saudável têm impulsionado o surgimento de negócios especializados em atender às necessidades do público acima dos 50 anos. Em Alagoas, esse movimento ganhou forma na Longevos, academia estúdio criada para oferecer um atendimento personalizado, voltado não apenas à prática de exercícios físicos, mas também à promoção da autonomia, da convivência social e do bem-estar.
A diretora técnica da Longevos, Dra. Piettra Galvão, explica que a ideia nasceu da percepção de que muitas pessoas maduras não encontravam espaços preparados para atender às suas necessidades específicas. Além do acompanhamento profissional adequado, havia uma demanda crescente por acolhimento e interação social, especialmente após os impactos provocados pela pandemia.
“Identificamos que muitas pessoas precisavam voltar a conviver, criar vínculos e retomar atividades que favorecessem uma vida mais ativa. Ao mesmo tempo, percebemos a necessidade de um serviço de qualidade, com prescrição individualizada de exercícios, respeitando as condições e limitações de cada pessoa”, afirma.
Segundo ela, o processo de envelhecimento envolve diferentes realidades e exige uma abordagem cuidadosa. Por isso, a proposta da empresa é desenvolver programas que considerem as características individuais de cada aluno, promovendo mais segurança na prática das atividades físicas e contribuindo para a manutenção da independência funcional.
“O nosso foco é ajudar essas pessoas a construírem um estilo de vida mais saudável, com autonomia para realizar suas tarefas diárias, participar da vida social e manter a capacidade funcional pelo maior tempo possível”, destaca.

A trajetória da empresa também contou com apoio do Sebrae Alagoas. Piettra relata que a instituição foi fundamental para orientar o processo de registro da marca Longevos junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), procedimento que segue em andamento.
“Entramos com o pedido de registro por meio do Sebrae. Recebemos a indicação de um profissional especializado que acompanha todas as etapas do processo e nos orienta sobre os procedimentos necessários. Isso trouxe mais segurança para formalizar a marca”, explica.
Além disso, a empreendedora buscou capacitação em gestão empresarial. Entre as ações que mais contribuíram para o desenvolvimento do negócio, ela destaca as consultorias e treinamentos voltados ao controle financeiro.
“Participei de cursos e consultorias que me ajudaram muito na organização da empresa. Tivemos momentos coletivos e também atendimentos individualizados. A consultora analisou a realidade do meu negócio, apresentou ferramentas de controle financeiro e modelos de planilhas que utilizamos até hoje. Foi um aprendizado importante para o crescimento da empresa”, relata.

A empresária também participa regularmente de eventos promovidos pelo Sebrae voltados ao empreendedorismo e à inovação. Segundo ela, esses espaços oferecem oportunidades para troca de experiências e aplicação de novas estratégias ao negócio.
O avanço da longevidade da população tem ampliado as oportunidades para empreendimentos voltados ao público maduro. Na avaliação de Piettra, Alagoas ainda possui um amplo campo para expansão de serviços destinados às diferentes realidades da população idosa.
“Existem necessidades muito diversas. Temos pessoas mais dependentes, que precisam de assistência domiciliar ou institucional, mas também há um grande grupo de idosos ativos, que buscam atividades físicas, culturais, artísticas e oportunidades de convivência. Ainda há muito espaço para iniciativas que valorizem o protagonismo da pessoa idosa e ampliem sua participação na sociedade”, observa.
Na Longevos, o estímulo à socialização faz parte da proposta de trabalho. Além dos atendimentos personalizados, a empresa promove encontros mensais que reúnem alunos em atividades educativas, culturais e recreativas.
“Esses momentos fortalecem a rede de apoio entre os participantes. Eles criam amizades, trocam experiências e constroem vínculos que vão além do ambiente da academia. Muitos continuam conversando por telefone, mensagens e organizando outras atividades juntos”, conta.
Os eventos incluem desde ações de educação em saúde até celebrações temáticas. A próxima atividade será uma festa junina voltada aos alunos e seus familiares.

Para Piettra, o envolvimento da família também desempenha papel importante na promoção da qualidade de vida durante o envelhecimento.
“Convidamos os familiares para participarem dos encontros, porque isso fortalece a integração. Eles passam a conhecer melhor a rotina dessas pessoas, os vínculos que estão sendo construídos e os benefícios que essa convivência proporciona. É uma forma de ampliar a rede de apoio e reforçar os laços sociais”, afirma.
Mais do que um espaço para exercícios físicos, a Longevos aposta na construção de relações e no incentivo a uma vida ativa como ferramentas para enfrentar um dos principais desafios da sociedade contemporânea: garantir que o aumento da expectativa de vida seja acompanhado por mais saúde, participação social e bem-estar.
“Esse público quer viajar, consumir estética de ponta, praticar atividades físicas ao ar livre, dançar e investir em bem-estar'', aponta Anissélia Nunes, Analista de Relacionamento do Sebrae/AL
Atividade física e atendimento especializado impulsionam qualidade de vida na terceira idade
A personal trainer Maisa Rodrigues Nascimento, que atua na Longevos, explica que o trabalho desenvolvido na academia vai além da prática de exercícios físicos. De acordo com ela, cada aluno passa por avaliações funcionais e corporais para que o treinamento seja totalmente personalizado.
“A gente trabalha especificamente com aquilo de que o aluno necessita. São feitas avaliações funcionais e também por meio da bioimpedância, que permite acompanhar o ganho de massa muscular e a evolução física. Além disso, trabalhamos o cognitivo com ferramentas específicas. O objetivo é promover qualidade de vida, autonomia e independência para as atividades do dia a dia”, destacou.

Entre os alunos está a aposentada Marly de Lima Carvalho, de 82 anos. Mesmo sem grande afinidade com academia, ela reconhece a importância da atividade física para manter a independência.
“Eu não gosto muito, não, mas venho porque minhas filhas me trazem. Tenho algumas doenças crônicas, e elas querem o melhor para mim”, contou.

A filha dela, a aposentada Claudia Maria Lima de Carvalho, explicou que a decisão de matricular a mãe partiu de uma recomendação médica.
“Ela tem problemas cardíacos e hipertensão. O cardiologista recomendou exercícios de fortalecimento físico. Como eu já acompanhava o trabalho da academia pelas redes sociais, decidimos trazê-la. Em três meses, já percebemos diferença, principalmente na disposição e na autonomia dela”, relatou Claudia.

Quem também aprovou a experiência foi a aposentada Leda Melo, de 73 anos. Já habituada à prática de exercícios, ela afirma que encontrou na Longevos um atendimento mais humanizado.
“Eu já treinava em outra academia, mas minha filha conheceu o trabalho daqui e me trouxe. Estou amando. Minha disposição melhorou muito, e o tratamento é excelente”, disse dona Leda.

Estrutura em Alagoas ainda é desafio
O crescimento da economia prateada, voltada ao público idoso, ainda acontece de forma lenta em Alagoas. A avaliação é do gerontólogo e sociólogo Francisco Silvestre, coordenador do Observatório do Idoso no estado, que aponta falta de inovação e adaptação das empresas para atender pessoas acima dos 60 anos.
Segundo ele, os serviços especializados ainda atendem principalmente idosos com maior poder aquisitivo. “Quem tem melhores condições financeiras acaba buscando opções fora de Alagoas, principalmente nas regiões Sul e Sudeste”, afirmou.

Silvestre destaca que, apesar de algumas mudanças, ainda falta muito para que o estado ofereça estrutura adequada à população idosa.
“O envelhecimento da população cresce rapidamente, mas os serviços e os espaços ainda não acompanham essa realidade”, disse.
O especialista também chamou atenção para a situação dos idosos de baixa renda, que muitas vezes precisam recorrer a empréstimos consignados para complementar a renda, comprometida principalmente com alimentação e medicamentos.
IDOSOS E MERCADO
Para o economista Jarpa Aramis, o aumento da expectativa de vida vem criando novas oportunidades de negócios e obrigando empresas a se adaptarem às necessidades desse público.
“Com as pessoas vivendo mais, surgem novas demandas por serviços de saúde, turismo, lazer, tecnologia e bem-estar. O mercado começa a perceber a necessidade de atender melhor esse público”, explicou.
Segundo o economista, além de consumir mais, muitos idosos continuam ativos no mercado de trabalho, o que também movimenta a economia e amplia a procura por produtos e serviços especializados.
Aramis destaca ainda que setores como hotelaria, transporte, saúde e entretenimento precisam investir em acessibilidade e atendimento adequado para acompanhar o crescimento dessa população.
Número de idosos deve superar o de jovens
O envelhecimento da população brasileira tem impulsionado o crescimento da economia prateada. Segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2031 o número de idosos deve superar o de jovens no Brasil pela primeira vez. A estimativa aponta que o país terá 43,3 milhões de idosos, contra 42,3 milhões de jovens de até 14 anos. Em Alagoas, o cenário acompanha essa mudança demográfica. Dados do Censo de 2022 mostram que cerca de 750 mil pessoas no estado têm mais de 50 anos.
Com quase 46 mil clientes em Alagoas, Banco Mercantil aposta em soluções especializadas
O crescimento da população acima dos 50 anos tem impulsionado a economia prateada e levado instituições financeiras a desenvolver produtos e serviços voltados às necessidades desse público. Em Alagoas, o Banco Mercantil conta atualmente com 45.878 clientes e aposta em soluções específicas para a geração madura.
Segundo o superintendente regional do Banco Mercantil, Sâmio Figueredo, o objetivo da instituição é oferecer mais do que serviços bancários tradicionais.
“Nosso propósito é ser o maior e melhor ecossistema financeiro voltado ao público 50+. Entendemos que esse cliente busca não apenas produtos financeiros, mas também soluções que contribuam para sua qualidade de vida, autonomia e bem-estar”, afirma.
Entre as iniciativas oferecidas está a plataforma Meu+, que reúne serviços nas áreas de saúde, odontologia, educação, tecnologia, assistência pet e bem-estar.

De acordo com Figueredo, o banco busca atender diferentes perfis de clientes, combinando canais digitais e atendimento presencial.
“O público 50+ é extremamente diverso. Existem clientes que preferem autonomia e utilizam os canais digitais, mas também há aqueles que valorizam o atendimento presencial e o relacionamento mais próximo. Nosso papel é oferecer ambas as possibilidades”, destaca.
Para o executivo, a ampliação de projetos voltados à população madura também fortalece a inclusão financeira em um cenário de envelhecimento crescente da população brasileira.
“Esses projetos ajudam a promover autonomia, segurança e acolhimento para um público que possui necessidades específicas. Trabalhamos para que o cliente 50+ seja reconhecido como protagonista e valorizado em sua trajetória”, ressalta.
Com o avanço da longevidade, a expectativa do setor é de crescimento contínuo da demanda por produtos e serviços especializados para a população madura, um dos segmentos que mais ganham relevância na economia brasileira.
Recursos chegam à ponta e ampliam proteção a idosos em situação de vulnerabilidade
O avanço do envelhecimento populacional no Brasil tem ampliado a pressão por políticas e iniciativas capazes de garantir condições mais dignas de vida à população idosa, especialmente em regiões marcadas por desigualdades sociais. Nesse contexto, mecanismos de financiamento por meio de fundos públicos vêm ganhando relevância na sustentação de projetos voltados à proteção, convivência e garantia de direitos.
No Banco do Nordeste (BNB), os recursos destinados aos Fundos dos Direitos da Pessoa Idosa são aplicados por meio de editais com critérios técnicos de seleção. Segundo o gerente executivo de Desenvolvimento Territorial, Manoel Roberto Lopes Muniz, as propostas passam por etapas de habilitação e avaliação, que consideram desde a regularidade das instituições até o impacto social das ações.
“Os projetos precisam ser aprovados pelos Conselhos dos Direitos da Pessoa Idosa e atender a requisitos como experiência da entidade executora, regularidade jurídica e atuação junto ao público em situação de vulnerabilidade social. Na avaliação técnica, são analisados aspectos como qualidade da proposta, clareza de objetivos, número de beneficiários e capacidade de execução e monitoramento”, explica.
Entre as áreas priorizadas estão iniciativas de cuidado e proteção da pessoa idosa, defesa de direitos, enfrentamento à violência, além de ações de saúde, prevenção ao uso de álcool e outras drogas, atividades culturais, educativas e de lazer. Parte significativa dos projetos está concentrada em municípios do semiárido, onde as condições de acesso a serviços são mais limitadas.
Os investimentos apoiados pelo banco financiam ações que vão do atendimento multidisciplinar ao fortalecimento de vínculos familiares, passando por segurança alimentar e atividades socioeducativas. Na avaliação do gestor, os efeitos dessas iniciativas se refletem diretamente na rotina dos beneficiários.
“Esses projetos ajudam a reduzir o isolamento social, ampliam o acesso a serviços e contribuem para um envelhecimento mais ativo e digno. O impacto não está apenas no atendimento imediato, mas na construção de autonomia e na ampliação das redes de apoio dessas pessoas”, afirma.

Além dos recursos diretos via editais, o banco também atua na mobilização de contribuintes e parceiros para a destinação de parte do Imposto de Renda aos fundos da pessoa idosa. A adesão a essas campanhas tem crescido nos últimos anos dentro da instituição.
Os valores arrecadados evoluíram de cerca de R$ 500 mil em 2023 para aproximadamente R$ 517 mil em 2024, alcançando cerca de R$ 640 mil em 2025. No acumulado histórico, as campanhas já ultrapassam R$ 6,5 milhões em destinações adicionais, ampliando a capacidade de financiamento das iniciativas sociais.
Para Manoel Roberto, esse movimento amplia o alcance dos projetos apoiados e fortalece a rede de execução das políticas voltadas à população idosa. “O aumento da participação de diferentes públicos permite que mais projetos sejam viabilizados e que as ações cheguem a mais territórios. Isso fortalece a política de proteção social e amplia o alcance das iniciativas”, destaca.
Apesar da ampliação dos recursos, os desafios seguem concentrados no crescimento da população idosa em situação de vulnerabilidade, na necessidade de ampliar a rede de serviços e no enfrentamento de situações como abandono e violência.
Para os próximos anos, o Banco do Nordeste prevê a continuidade do apoio a projetos sociais por meio de editais, além do fortalecimento das parcerias com conselhos e organizações da sociedade civil e da ampliação dos mecanismos de acompanhamento dos resultados das iniciativas financiadas.
A atuação busca consolidar a estrutura de financiamento de projetos voltados à população idosa em diferentes territórios do Nordeste, especialmente em áreas com maior restrição de acesso a serviços públicos e redes de apoio social.
Sala de aula ganha novos perfis com o retorno de estudantes após os 60 anos
Durante décadas, o ingresso na universidade esteve associado quase exclusivamente à juventude. Hoje, porém, as salas de aula brasileiras começam a refletir uma nova realidade demográfica: o aumento da presença de pessoas com mais de 60 anos no ensino superior.
Movidos pelo desejo de realizar sonhos antigos, conquistar novos conhecimentos, manter-se intelectualmente ativos ou até iniciar uma segunda carreira, idosos têm ocupado espaços tradicionalmente associados às gerações mais jovens. O movimento acompanha o crescimento da expectativa de vida da população brasileira e reforça uma mudança de percepção sobre o envelhecimento, cada vez mais ligado à autonomia, ao protagonismo e à aprendizagem contínua.
No Centro Universitário Cesmac, esse cenário já pode ser observado na prática. Levantamento realizado pela Pró-Reitoria Acadêmica Adjunta identificou a presença de 23 estudantes com mais de 60 anos distribuídos em diferentes cursos de graduação da instituição. Os alunos estão matriculados em áreas como Direito, Psicologia, Enfermagem, Fisioterapia e Sistemas de Informação, com idades que variam de 60 a 77 anos.

O curso de Psicologia concentra o maior número de estudantes nessa faixa etária, com nove matriculados entre os campi de Maceió e Agreste. Em seguida aparece Direito, com dez alunos distribuídos entre as unidades de Maceió, Agreste e Sertão. Também há registros em cursos da área da saúde, como Enfermagem e Fisioterapia, além de Sistemas de Informação.
A presença desses estudantes amplia a diversidade dentro do ambiente acadêmico e promove trocas de experiências entre diferentes gerações. Ao mesmo tempo em que buscam formação universitária, eles levam para a sala de aula vivências profissionais, familiares e sociais acumuladas ao longo de décadas, enriquecendo os debates e contribuindo para uma formação mais plural.
Mais do que uma busca por diploma, o retorno aos estudos representa, para muitos, a oportunidade de reescrever trajetórias interrompidas pelas exigências do trabalho, da criação dos filhos ou pelas dificuldades de acesso à educação em outras fases da vida. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, histórias como essas mostram que a aprendizagem não tem prazo de validade e que a universidade também pode ser um espaço de recomeços.
Quando aprender vira um novo projeto de vida
Aos 60 anos, Isabel Rezende decidiu iniciar uma nova etapa. Estudante do primeiro período de Fisioterapia no Cesmac, ela trocou a rotina já consolidada por livros, provas e uma intensa jornada de aprendizado.
Formada em Estética e Imagem Pessoal, com especializações em Instrumentação Cirúrgica e Pós-operatório em Cirurgia Plástica, Isabel encontrou na Fisioterapia uma forma de ampliar seus conhecimentos na área da saúde.
"Sempre fui apaixonada pela área da saúde. A Fisioterapia veio para agregar conhecimento e me permitir oferecer um atendimento ainda melhor. Entrei no curso e me encantei. Hoje tenho certeza de que fiz a escolha certa", afirma.
Para ela, voltar à universidade aos 60 anos representa a realização de um projeto de vida e uma forma de manter a mente ativa.

"Às vezes eu mesma me pergunto se isso está acontecendo de verdade. Mas me sinto jovem, capaz e motivada a aprender. Tem sido uma experiência maravilhosa", conta.
A convivência com colegas mais jovens também tem sido positiva. "O relacionamento com professores e colegas acontece de forma muito tranquila. Existe respeito e troca de experiências. Cada um aprende um pouco com o outro", diz.
À medida que avança na graduação, novas áreas despertam seu interesse. "Estou encantada com o estudo do corpo humano e dos processos de reabilitação. A possibilidade de ajudar pessoas a recuperar a saúde e melhorar sua qualidade de vida é algo que me inspira muito."
Para Isabel, a universidade representa a prova de que sonhos e projetos não têm idade para acontecer.
Voltar a crescer aos 61 anos
Aos 61 anos, Valéria Hora Barros decidiu retomar o curso de Psicologia que havia interrompido anos antes. Formada em Administração pela Ufal e apaixonada pela psicanálise, ela viu na volta à universidade a oportunidade de concluir uma história que considerava inacabada.
“Eu não gosto de deixar nada pela metade. Com a Psicologia foi a mesma coisa. Eu tinha começado o curso, interrompido e sentia que precisava voltar”, conta.
O objetivo vai além da graduação. Valéria planeja atuar profissionalmente na área. “Sou apaixonada por Psicologia e pela psicanálise freudiana. Voltei porque quero concluir a graduação e, futuramente, atuar em consultório. As pessoas precisam entender que quem tem mais de 60 anos também faz planos para o futuro”, afirma.

O retorno trouxe desafios, principalmente relacionados à tecnologia, mas também proporcionou novas perspectivas por meio da convivência com colegas mais jovens.
“A juventude tem uma capacidade enorme de nos resgatar. Ao mesmo tempo, nós temos experiências acumuladas que também enriquecem essas relações. É uma troca muito bonita.”
Segundo ela, a maior transformação aconteceu na forma de enxergar o próprio envelhecimento. “Quando cheguei aos 60 anos, tive a sensação de que estava entrando numa fase de declínio. Mas voltar para a faculdade mudou completamente essa visão.”
Hoje, Valéria descreve a experiência como um recomeço. “Eu não estou mais ladeira abaixo. A sensação que tenho é que voltei a crescer. Voltei a fazer planos, a criar projetos e a pensar no futuro.”
Para ela, a universidade se tornou um espaço de renovação pessoal. “Estudar me renovou. Me resgatou. Trouxe de volta a vontade de aprender, de conviver e de construir coisas novas. O que eu diria para outras pessoas da minha idade é simples: procure algo que lhe dê prazer e se dedique a isso.”
Entre livros, teorias e novos projetos, Valéria descobriu que o envelhecimento não precisa representar um encerramento, mas pode marcar o início de uma nova fase repleta de possibilidades.
Quando a experiência também ensina
Para a coordenadora-geral do curso de Fisioterapia do Cesmac, Profa. Dra. Raphaela Teixeira, a presença de estudantes acima dos 60 anos tem tornado o ambiente acadêmico mais diverso e enriquecedor. Em uma área que exige conhecimento técnico e habilidades práticas, os alunos mais experientes demonstram que a formação profissional também é construída a partir das vivências acumuladas ao longo da vida.
Segundo a docente, esses estudantes chegam à universidade com objetivos bem definidos e grande motivação.
“Diferentemente de muitos jovens que ainda estão descobrindo seus caminhos, eles sabem exatamente por que estão ali. Existe uma determinação muito grande em aprender e aproveitar cada oportunidade oferecida pela graduação”, afirma.
Raphaela destaca que o principal desafio está relacionado à adaptação às novas tecnologias, como plataformas digitais, sistemas acadêmicos e ferramentas de inteligência artificial. Ainda assim, segundo ela, os alunos mais velhos demonstram disposição para aprender e superar dificuldades.

Para a coordenadora, a maturidade desses estudantes contribui diretamente para a qualidade das discussões em sala de aula. “Eles fazem conexões entre a teoria e situações reais vivenciadas ao longo da vida. Além disso, valorizam profundamente o processo de aprendizagem”, observa.
A professora ressalta ainda que características como disciplina, responsabilidade e comprometimento acabam influenciando positivamente os colegas mais jovens. “Muitas vezes eles se tornam referências, mostrando que nunca é tarde para buscar novos caminhos e realizar sonhos.”
Na avaliação de Raphaela, o aumento da presença de idosos nas universidades acompanha uma transformação social importante. “Durante muito tempo, a velhice foi associada ao encerramento de ciclos. Hoje vemos pessoas iniciando projetos, construindo carreiras e realizando sonhos em fases da vida antes vistas apenas como tempo de aposentadoria.”
Ela acredita que a convivência entre diferentes gerações beneficia toda a comunidade acadêmica. “É uma troca constante. Os mais jovens contribuem com novas perspectivas e familiaridade com a tecnologia, enquanto os mais experientes compartilham maturidade, repertório e vivências.”
A maturidade que transforma a sala de aula
Para o coordenador do curso de Psicologia do Cesmac, Leandro Matos Souto da Rocha, a presença de estudantes acima dos 60 anos fortalece o ambiente universitário e amplia a diversidade de experiências dentro da sala de aula.
Segundo ele, esses alunos costumam ingressar na graduação motivados pela realização pessoal e pelo desejo de continuar aprendendo. “São estudantes extremamente comprometidos, interessados e participativos. Costumam associar os conteúdos acadêmicos às experiências acumuladas ao longo da vida, enriquecendo os debates”, afirma.
Leandro destaca que a convivência entre diferentes gerações promove aprendizado mútuo. “Os alunos mais velhos compartilham maturidade e experiências, enquanto os mais jovens contribuem com dinamismo e novas formas de comunicação. É uma troca extremamente rica.”
O professor relata que nunca presenciou conflitos significativos relacionados à idade entre os estudantes. Pelo contrário, a convivência costuma fortalecer o respeito e ampliar a compreensão sobre as diferentes etapas da vida.

Entre as histórias que marcaram sua trajetória acadêmica, ele destaca a de um aluno que ingressou no curso de Psicologia aos 70 anos e concluiu a graduação com dedicação exemplar, apesar das limitações de locomoção. “Era um dos alunos mais dedicados que conheci. Nunca permitiu que as dificuldades físicas limitassem sua participação.”
Hoje, próximo dos 80 anos, o ex-aluno atua como psicólogo clínico. “Quando somou toda a sua experiência de vida ao conhecimento adquirido na graduação, tornou-se um profissional extremamente preparado”, destaca.
Para Leandro, exemplos como esse ajudam a desconstruir a ideia de que o aprendizado pertence apenas à juventude. “A universidade não é um espaço reservado a uma faixa etária específica. Conhecimento, crescimento pessoal e realização continuam sendo possibilidades em qualquer etapa da vida.”


